Acho que tenho ciúmes de Clarice
Não tenho
realmente ciúmes dela...Queria que todos a lessem .Deixe-me ,caro leitor, por
favor ,começar pelo começo.
Tenho uma
amiga de infância que me é muito cara, e muito misteriosa como Clarice, tão
misteriosa que não sabia que enxergava o universo exatamente como eu. Não sabia
que durante os tempos difíceis da pandemia ,alguém à salvou, e esse alguém não fui
eu, nem nenhuma outra pessoa viva, foi uma escritora que pertenceu a terceira
fase do modernismo brasileiro ,uma escritora que a classificavam como hermética,
uma escritora que para mim é a melhor da literatura brasileira, apesar de que não
gostava de ser nem considerada como escritora, não se considerava intelectual ,apenas
uma amante da língua portuguesa talvez. Essa escritora é Clarice Lispector. Cléo
me apresentou Clarice quando nunca antes tinha ouvido falar nela, quando suas
frases não tinham virado modinha, quando eu não desvendara nada de sua misteriosidade,
e assim peguei um de seus célebres romances para ler. Clarice salvou Cléo, Cléo
e Clarice me salvaram.
Me lembro
de querer devorar de uma só vez "A paixão segundo GH" ,mas apesar de
querer dar continuidade a leitura ,precisava de pequenas pausas no qual
ficava a olhar para o nada apenas tentando processar ,processar o que Clarice
dissera ,processar uma literatura que nunca antes tinha lido nada igual, processar
algo que no meu íntimo havia pensado igual ,mas nunca antes conseguido admitir
a mim mesma. Então me senti acolhida e pertencida, no meu íntimo, à Clarice .Uma
escritora que já havia morrido, compartilhava o meu íntimo .Quando sentada no
tapete do meu quarto a folear as páginas escritas por Lispector, estava em êxtase
,sim, êxtase purinho .Sim, tivera já o
pensamento que era tão estranha que não havia ninguém que fosse estrangeira como eu ,mas
aí, parecia que Clarice me pensava e me transcrevia. Ela era eu, e eu, ela. Como
quando escreveu em uma de suas publicações no Jornal do Brasil :"O
personagem leitor é um personagem curioso ,estranho[...]e tão terrivelmente
ligado ao escritor que na verdade ele, o leitor, é o escritor.
Quando
mais criança acho que tinha a intenção de querer ser a mais única possível
, única em pensamentos, em ideias mirabolantes, única no meu jeito de ser feliz ,única até no meu jeito de andar .Depois, por razões de querer me mesclar ao mundo, talvez por medo
de ser alvo da crueldade desse mundo ,um dos meus sonhos, não foi mais querer ser única .Cresci mais um
pouco e percebi que somos, sim ,todos um pouco como iguais ,mas no sentido bom
da palavra ,já que preservamos cada um uma
única subjetividade , com Clarice
aprendi que não estamos de tudo
desamparados ,pois é como se o ininteligível do universo estivesse no fundo de
cada um de nós .Adolescente, acho que queria mais era ser todo mundo ,para não ser sozinha .Mas agora que tenho Clarice
Lispector ,não me sinto de toda sozinha,
e nem quero ser todo mundo .Não sei se fico feliz ou triste ao lê-la ,ou se enlouqueço
.Como
disse Caetano à respeito de quando leu Lispector: "fiquei com medo, medo
de enlouquecer".
Que delícia esse blog!!
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