Carta à Clarice
Imagina só poder viver na mesma época de Clarice? Acordar no
frescor de um sábado de manhã, e poder se deleitar com sua coluna no Jornal
Nacional. Imagina estar andando na praia do Leme e despretensiosamente Clarice também
estar andando por lá? Acho que ela estaria sozinha, talvez com uma amiga tendo
conversas um tanto quanto profundas ,acho que seus olhos estariam perdidos na
beleza e imensidão da cidade do Rio de Janeiro .Ou talvez, mesmo vivendo na mesma época, não nos cruzaríamos
nunca, já que ela não era muito de sair de casa, acredito que adorava o conforto
de seu lar e o desconforto singelo ,de alguns de seus pensamentos. Mas mesmo
assim ,seria incrível ter vivido na mesma época de alguém que tanto tenho admiração,
mesmo que o destino não nos unisse.
Tenho lido recentemente um livro de Clarice chamado : A
descoberta do mundo .Um livro grosso, e óbvio belíssimo ,que é uma coletânea das escritas
que publicava no jornal da época .Alguns conheciam a Clarice escritora de
romances, já outros a conheceram pelas suas colunas no jornal, e estes eram
seus admiradores .Pessoas que tinham o privilégio de acompanhar o trabalho de
Lispector, e que comovidos pela sensibilidade e do íntimo secreto que ela
compartilhava e conversava com os leitores, principalmente com aqueles que a acompanhavam
no jornal, Clarice recebia Cartas .E que
beleza tem as cartas...Uma das tristezas que tenho de ter nascido na geração que
nasci ,é não poder enviar cartas a meus amigos próximos ,ou pessoas da quais
gosto .Até posso, mas não é nem um pouco comum eu diria...Sendo assim, acabo por
me contentar com mensagens de Whatsapp, ou
áudios. Os áudios gosto bastante, os uso como um podcast, minhas amigas bem
sabem...Mas queria a carta, queria a beleza de se poder escrever com papel e
caneta numa folha em branco ,e se desenvolver ali, se abrir em uma folha em
branca ,e depois enviá-la. Ir no correio e enviá-la. E aguardar ansiosamente por uma
resposta ,e ter a paciência de aguardar minhas correspondências, e ter uma
felicidade clandestina(como diria Clarice) ao saber que alguém poderia estar a
me escrever as mais sinceras palavras, e então assinar seu nome.
Então ,mesmo Clarice não estando mais entre nós ,e eu assim,
não poder lhe enviar lindas cartas como muitos a faziam, e ela a alguns respondia ,vou aqui escrever um pouco como uma
carta aberta a minha querida escritora preferida. Dentre Kafka ,Fernando Pessoa
,Guimarães Rosa, Drummond, Jóse Saramago, Virginia Woolf ,Silvia Plath ,Dostoiévski
,Tolstói,e tantos outos, sempre será você Clarice. Você se renovava na língua portuguesa
,mas saiba que também renovou e ressignificou nossa língua de tantas maneiras .Adoro o jeito
como brinca e desmontas as palavras todas .Não necessariamente criando
neologismos como Guimarães, você criou como uma língua própria e secreta dentro
do português .Uma língua que talvez não aqueles de ‘’alma já formada’’ ,como
escreveu em A paixão segundo GH, só consigam ler, mas aqueles que ainda enxergam
uma certa sensibilidade aguçada na vida ,e a levam com certa subjetividade ,sempre
a conseguirão ler...
Suas palavras,pontuações,frases,parágrafos,contos,novelas,crônicas,me
enchem e me completam ,me formam como ser humano. Apesar de como disse no seu
escrito de nome Morte de uma baleia:´´E quem atinge o quase impossível estado
de Ser Humano, é justo que seja santificado. Porque desistir de nossa
animalidade é um sacrifício.’’Você, Clarice, me deixa um pouquinho mais humana a
cada dia que se passa, então acho que me deixa um pouco mais santa a cada dia que se passa,e me faz
largar um pouco de minha frágil animalidade, lhe agradeço por isso.
Nos dias de hoje com tanta maldade, invisibilidade, insensibilidade,
aos mais vulneráveis ,fico feliz de ter existido alguém tão sensível como você.Um
dos seus escritos que me é favorito ,é um que li em ´´A descoberta do mundo’’
chamado:O que eu queria ter sido.Me identifiquei profundamente com você. Também
fui aquela criança que ficava perplexa e
indignada com as injustiças do mundo,acho que quero ser uma lutadora como você queria
ser,uma lutadora pelos direitos dos outros,como você bem disse.´´Em pequena
,minha família por brincadeira chamava-me de a protetora de animais.Por que bastavam
acusar uma pessoa para eu imediatamente defendê-la.E eu sentia o drama social
com tanta intensidade que vivia de coração perplexo diante das grandes injustiças
a que são submetidas as chamadas classes menos privilegiadas’’.Acho que enxergar
a vida com sensibilidade,Clarice,é também enxergar a vida com um olhar político
e crítico.O que acha?Achei que terminou esse texto seu um tanto triste,como que
não entendendo que mesmo que não tenha se tornado uma advogada e diretamente defendido
os mais desafortunados,não teria se tornado uma lutadora...SIM Clarice,você tornou-se
uma lutadora que luta pelo bem do outros de uma forma linda,pela sua escrita
sensibilizadora,e isso,não é pouca coisa não viu?
Bjsss Clarice,obrigada por me entender tanto,mais que muita
gente viu?Você entende minha alma mais que muita gente,por que não preciso
traduzi-lá a você.
Agora terminando de escrever pra vocês,caro leitores do meu
blog,o que acham de começarmos a escrever mais cartas?Muito antiquado?Como já disse
eu acho que não,sou é uma grande defensora de nos expressarmos mais abertamente
e descontraídos por meio de cartas.Entendo
do processo demorado que se instalaria nos comunicando a partir de cartas,mas
poderia ser algo mensal ou semanal,por favor vamos não ser radicais aqui né?Com
certeza sentiria muita falta de enviar meus longos áudios no Whatsapp.
Efim,obrigada por me lerem até aqui.
Amei sua carta!! Concordo demais contigo, é tão medíocre a ideia de escrever um texto inteiro somente apertando dois dedos numa tela. Quero pegar uma caneta e desenhar cada letra do meu discurso. 💛
ResponderExcluirsimm amg,exatamente isso
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