Você tem alguém que chamaria para tomar um café?
Silêncio-estado de quem se cala ou se abstém de falar. É
como o dicionário descreve. Eu descrevo como o pronunciamento do absoluto nada,
como o nada atravessado pela infinitude do nada .Nada sobre nada .É silêncio. E
aqui não falo do silêncio punidor ou opressor ,falo mesmo do silêncio como sua
escolha, talvez até, como sua escolha de se manifestar e assim entender .Entender
o nada, e a vastidão da vida em que fomos todos nós ,colocados.
Temos o silêncio do qual participamos com ele sozinho na dança
da vida .É só você e ele nessa valsa. Você e o nada, que é o silêncio. Vocês
dois a pilotar sós, e obstinadamente, a linearidade da grande sala de valsa no
qual estamos inseridos, na nossa jornada cósmica...É você, sua jornada cósmica,
e seu silêncio é claro. No caso, acredito que você e o silêncio estão embutidos
juntos nessa. São um só. Uno. Juntos. São amantes. São acompanhantes .A menina
e o silêncio, meninasilêncio , o menino e o silêncio , meninosilêncio.
Mas tão bom é ter
alguém para compartilhar o silêncio, o tão importante é ter uma amizade
para isso... Pode ser um silêncio singelo ou um silêncio bruto, gosto dos dois.
Deixe-me explicar, caro leitor. Silêncio singelo- quando por exemplo se ouve mùsica
junto a quem se estima, e é como se os dois entendessem da mesma maneira cada
centímetro de melodia, sem precisar para isso falar nada. Ou quando se assiste
um filme no breu e silêncio completo , e se emociona, junto. Resumindo ,não se
tem o silêncio do externo, mas se tem o silêncio mudo dos lábios, e ainda
assim, nos entendemos com maestria e significados. Há também, leitor, o
silêncio bruto :É quando têm-se a mudez
de um cômodo, e também das pessoas- que também se encontram sem voz.
Eu chamei ela aqui pra casa ,ela veio e nos cumprimentamos felizes
e informais, treinamos conversando .É tão fácil treinar com ela- eu não gosto
de treinar, mas ela sim, e é fácil pois gosto de sua companhia e não por questões
físicas ,sempre na verdade ela me desafia no bom sentido, mas ainda assim
repito: é fácil. Sua presença afável e dócil torna fácil .Depois do banho
almoçamos felizes, depois, fazemos algo nosso que gostamos desde a muito tempo:
assistimos vlogs de viagens e fazemos comentários. A temperatura do dia estava
boa, estava perfeita, melhor dizendo. Depois ,mesmo sendo cedo – foi como um lanchinho pós almoço-
tentamos achar algo para beliscar. O que achamos foi biscoito champanhe. Fizemos
café. Colocamos um podcast sobre psicanálise. No início, eu como costumo falar
mais que ela, ia pausando e tecia comentários sobre o que juntas ,ouvíamos. Ela
com sua paciência que sempre tanto admirei, me ouvia complacente e
misericordiosa. Acho que misericordiosa seria um bom adjetivo para descrevê-la.
Meus caros leitores, tenho que soltar o nome dessa minha amiga, tão bonito e
poético seu nome é. Lígia. Lígia é seu nome. Tão poética ela é, tão poético seu
nome é .Ela soa como bailarina dançando leve e solta ,só escutando. Eu também
só escutava como bailarina.(lembrei que quando pequena ela fez um aniversário
com tema bailaria).não importa. O SILÊNCIO VEIO. O silêncio veio como dança.
Felicidade clandestina, e depois, estado de graça. Ó silêncio singelo, obrigada.
E obrigada minha amiga Lígia, pela companhia.
Caro leitor, você tem alguém que chamaria pra tomar café?
Café esse simples e coado , que a Li sempre faz, mesmo sendo ela a convidada...
Ela já é de casa. Café com silêncio e biscoito champanhe. Silêncio amigável e
feliz, com café, é claro. Não pode nunca faltar o café. E o silêncio .Mas o silêncio
que é acolhedor ,e nem um pouco constrangedor ,só pode vir quando acompanhado
de alguém que se gosta muito. Sempre
chamaria a Lígia para tomar um cafezinho da tarde comigo. Li, se lê isso, está
sempre convidada aqui pra casa pra tomar café, e devanear juntas no silêncio
silencioso da vida. Acho que é no silêncio que vamos tentando achar nosso
sentido na vida.
Quero poder estar velhinha e ainda tomando café, no conforto
de uma poltrona e na brisa de uma varanda, com minha amiga Lígia. Nós duas já
bem idosas, e talvez já com nossos netos, e com nossos corações já bem feridos,
nossas peles já machucadas pelo tempo .Enrugadas. A velhice chegou. Quero
envelhecer com uma amiga, uma boa xícara de café, e o silêncio singelo, que é
compartilhado com quem se ama.
Vovó Li, Vovó Ju.
- Duas velhinhas morrem hoje, numa manhã de quarta e
temperatura amena.
Morreram tranquilas e
felizes no silêncio de comunhão. O silêncio as engoliram. Para o silêncio e
para o nada , se foram.
E a vocês, meus caros leitores, eu rezo para que também tenham
alguém para envelhecer juntos, tomar um café, e compartilhar um silêncio.
Comungar.
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