Ângela

 Angela não estava com sono; ela só estava com medo. E, então, precisava dormir: esquecer que vive por um instante, esquecer que existe em um corpo e que está fadada a apodrecer como um figo já muito maduro, que agora contamina a sua sala de estar.

Quando se mudou para o centro de São Paulo, ela não ligava para o barulho constante — até preferia isso ao silêncio, porque o silêncio doía demais nela. Desde criança, não entendia a insuportável dor do barulho do silêncio; só aceitava e não questionava, porque, para questionar, precisava, mais do que tudo, de um momento de silêncio.

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