Pedi um cigarro pra Deus

 Quando a dor é tão grande que você não clama mais nem por um abraço, só pede um cigarro pra Deus. Só pede para Ele te entorpecer, tirar sua dor, custe o que custar. Quando dói tanto que você pede para Ele te mudar inteira, te costurar em retalhos, te fazer diferente do que é agora, pra ver se assim o sentimento ruim vai embora e te larga de uma vez por todas.

Quando a dor é tão grande que se torna um silêncio vazio e sem alma, vira casa velha com memórias desolantes. Você talvez chore muito, com a esperança de Deus sentir, em sua própria pele, e ouvir, com seus próprios ouvidos, essa dor sua que faz tanto barulho, que parece querer te implodir e arrancar seu próprio coração como um ato de libertação.

Calma. Talvez essa tristeza sua seja só um personagem de uma história triste, uma criação sua, apenas uma criatura imaginária muito melancólica. Vamos rezar para que sim. Vamos rezar para que seja tudo simulação, realidade paralela, sonho. Tudo um grande pesadelo do qual, em um dia ensolarado, você vai acordar, e não vai mais ter essa melancolia singela, mas afiada, te perseguindo como sombra — sua própria sombra — todo santo dia.

Quando esse dia chegar, e você acordar desse pesadelo que é a sua própria existência, você vai olhar seu reflexo com a ternura que uma mãe olha seu bebê. Você vai se abraçar como uma mulher abraça humildemente o ferido, o monstro. E aí, então, você será acolhida como se acolhe o defeito alheio, e sentirá seu próprio amor em sua própria pele. Seu amor, por um instante, se tornará todo seu; estará incrustado no seu sangue mais íntimo. Você estará se acolhendo com mais que perdão — com tudo, menos ódio.

Você será como a criança mais amada do mundo, sendo acolhida com mantas quentes. Você pertencerá a você mesma, incondicionalmente, e jamais, vai apertar o gatilho.

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