texto da Cle

  Eu tinha acabado de escorregar do ventre da minha mãe pela segunda vez. Estou penosamente vendo e ver é tão claro que não posso aguentar. Estou tentando aturar, tentando suportar essa claridade. Ver é externo demais, é fora demais, me arregaça todos os órgãos e acho que eu não posso digerir. Eu antes me acomodava por dentro, hermeticamente, mas a luz é clara demais. Eu certamente havia ganhado algo, mas sentia que perdi? Eu tinha acabado de perder a placenta que me nutria. Agora, fraca e sem gosto, a verdade e a realidade eram quem me alimentava. A cegueira se parecia com o ventre.


    Tudo sempre me foi ilusório. Não era uma vida nutrida de mentiras, nunca foi. Era uma vida com verdades decoradas. A vida com verdades decoradas é bem mais fácil. Entretanto, agora que vi a verdade, a vida exige de mim. Exige que eu saiba ver também as coisas que eu não entendo. Eu quero urgentemente que outro alguém veja por mim, é perigoso demais a liberdade de enxergar com as próprias retinas. Sempre enxergaram por mim, a dureza da claridade cegante eu não via. Afinal, a luz é mais cegante que a escuridão? 

    A verdade é que ver o que eu vi me fez sentir o nada. O nada da claridade e o nada da escuridão enovelados no mesmo nervo. Sentada, com as costas apoiadas na cama, direcionado à janela, meu corpo estava em êxtase. Eram 9 horas da noite de uma segunda-feira quando eu vi. O que eu vi é tão cru que não posso aguentar. A isso eu chamaria de maravilhamento, mas eu não estava maravilhada, eu estava em estado de nada. Supostamente, eu sempre pensei que neste momento eu me sentiria completa e evoluída. Tudo que eu senti, na verdade, foi que voltei a ser bicho. Vida primária. Eu simplesmente estava presente e via tão claramente que me era estranho. Eu era um primata, uma criança conhecendo o mundo após sair do ventre quente de sua mãe. O mundo era o momento. Já haviam cortado de mim aquele cordão umbilical há 18 anos, mas era agora, bem agora, que pela primeira vez, eu via o agora, eu sentia o agora, o nada -viver o agora era entender o nada?- o que aconteceria simplesmente aconteceria sem nada, sem o esforço de buscar entender alguma coisa. 


    Eu antes, pelo entendimento das coisas, tinha o controle do mundo, eu até agora conseguira segurá-lo dentro da minha mão, mas eu o perdi. Agora eu estava embriagada, ver era pesado, eu estava vendo e o que eu estava vendo era diretamente transmitido para mim, sem que o que eu visse, no pensamento, esbarrasse com minha testa e ficasse ali preso, coagulado e inútil, era uma impressão tão rápida que eu só podia sentir o agora. Eu antes criava o meu mundo a partir do que eu imaginava sobre o que diziam para mim. O pensamento me enganava, me enchia e eu me organizava assim, no escuro, tinha só a ideia de tudo, de tal maneira com que eu pudesse ter a sensação de que entendia de alguma coisa, mas eu não entendia nada, eu não tinha a essência primeira, eu não sabia ver e acima de tudo, não sabia só sentir. 


    Porém, agora eu sei? Acho que ainda não entendo. Eu sou alguma coisa além das coisas que me tornei pelo meu medo? Meu eu lírico é sempre eu tentando achar o eu. Eu deixei meu eu tão oculto que não pude construí-lo. Meu eu era mais o meu redor do que o próprio eu. A partir daí, eu quis ser genuína a ponto de escorregar do ventre da minha mãe pela segunda vez. É que na minha busca por ser alguém, nada nunca foi maior que o desespero de medir o mesmo tamanho que os outros. E se vivo de menções, a vida me é sempre vazia. Os outros são os outros e eu sou eu. Tinha de mim só os outros e é por isso que eu não gostava muito de mim. 

    A vida tinha acabado de me acontecer, crua e instantânea. A natureza da vida era muito crua. Eu havia cozinhado demais as coisas enquanto estava sem luz? Eu abria os olhos e pela primeira vez eu não via mais o nada em que eu me acomodava, mas eu não sei o que eu via,  porque ver algo cuja definição não se pode achar catalogada, organizada e decorada é ver um grande ponto de interrogação. Eu simplesmente não entendi o que vi, era só a presença no agora, presença que não pensa, não cutuca, não coça, não incomoda. Só sente. Imerso na ideia de tudo, não se tem noção de que o tudo é um grade nada, o tudo se parece mais com o nada do que o próprio nada, pois se sente tanto que se é anestesiado. Só quando se abre mão de entender tudo é que se vê e se sente. Ideias demais escurecem os olhos. Pensamentos demais destroem as lagartas em seus casulos no cérebro. Se penso demais no tempo, adoeço. Flutuante tempo. Quão rápido foi o último ano e quão demorado é esta noite.

    E é por isso que eu me senti enojada com o quão cru, tamanha crueza que é ver que se vive agora. O choque que levei quando enfim vi que se vive foi quase o mesmo de quando descobri que se morre. Viver era tranquilo até saber que se vive. E se vive agora. E dói. E sente. E não embaça os olhos. Essa é a nossa grande digestão da vida. Por isso, viver é também não entender o que se vê.

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